Até quando, até quando que as donas Marias vão chorar ao ver seus filhos se embalando?
“Até quando o tambor vai girar e vai matar nossos manos?”
Essa frase aí é minha, moça. Da minha música. Sou Kiko, tenho 31 anos.
Estava com medo de entrevistá-lo. Fui sozinha para o bairro naquele dia. Marquei com o ex-traficante lá no centro Múltiplo-uso. Quando cheguei, apenas o vigia estava no local. Puxou conversa e começou a me assediar. Não sabia se saia correndo ou se esperava o Kiko. Chegou numa moto. Só tirou o capacete quando se aproximou. Apertou minha mão, sorriu. Era o sorriso de alguém acanhado, com vergonha de ser entrevistado por ter sido traficante. Na verdade, não queria conversar com ele como ex-traficante, mas como ex-dependente. Foi então que descobri que ele era ex-presidiário. Ele já esteve na prisão!
Até quando vamos ver esses filmes, esses fatos das nossas quebradas da vida acontecer? Até quando, até quando o crime e o crack vão dominar os nossos cotidianos?
Eu só queria mudar de vida quando vim para Joinville. Vim a convite de minha irmã, mas fui seduzido por coisas que não conhecia na minha cidade. Comecei ir a baladas, comecei a beber e a fumar. Quando fiz 20 anos, numa destas festas, fui apresentado à cocaína. Fiquei dois anos me ababacando, me destruindo. Experimentei crack. Aquela maldita. Isso é uma química que o diabo inventou para acabar com todo mundo. Faz três anos que parei de fumar. Foi ai quando Deus surgiu na minha sua vida.
Kiko decidiu pensar na família e cessou com as drogas ‘pesadas’, mas o uso de maconha continuaria até pouco tempo. No dia 2 de setembro do ano passado, ele e os colegas estavam ensaiando na companhia da erva. Enquanto tocavam, a polícia passou e sentiu o cheiro do produto que consumiam. Kiko foi preso por possuir um toco meio grande.
- Cara não desejo isso pra ninguém. Tenho pena da minha mãe, meu. Tenho pena dela. Foi ela quem mais sofreu, sabia. Ela e a minha mulher.
Kiko saiu da prisão em abril. Durante o tempo em que permaneceu lá, admite ter aprendido uma lição: valorizar a família. Para ele, somente quem ama muito passa pela humilhação de ser revistado num presídio apenas para visitar quem está detido. Kiko assegura que, depois de tudo o que passou, aproveitará melhor a convivência com os familiares.
- Sabe o que eles fazem lá? Tiram a roupa da tua mulher, da tua mãe e fazem elas abaixar e ficar em cada posição. Eles te humilham lá.
Além da promessa aos familiares, por pedido dos fãs ele afirma que não se envolverá mais em besteiras. A experiência vivida dá credibilidade ao recado: “Abram o olho, fiquem longe do craque e da treta. O inimigo te usa, te coloca numa cadeia, te seiva. Viva, curta a família! Não precisa dar uma de louco. É bom demais estar de bem!”. Hoje empregado como motoboy ele afirma que nenhum valor no mundo paga a liberdade, e que muito dinheiro corrompe o coração.
Kiko é o fundador do Esquadrão JP. Ao grupo de rap agregam-se a esposa e os amigos Pezão e Andréia. As letras da banda falam sobre Deus e são baseadas em palavras de otimismo. Kiko é um dos compositores, com 12 músicas. Uma delas é a vitrine e mais querida pelo público: “Até quando?”. Diferente de outras bandas, para o Esquadrão JP, o reconhecimento e apoio vindos da comunidade são o pagamento dos integrantes.
Porque é sua mãe quem chora,
Mãe que implora quando vê seu filho.
Causa dor de ver entrando para o crime ou para a nóia.
É só viver meu!
Ajuda comunitária
Durante um ano de trabalho no Jardim Paraíso, tenho ouvido inúmeros relatos de assassinatos. Mas este não é o único modo de violência que atinge aquela região.
O relógio acusa 7h30 da manhã. Leila Aline Kutzner se arruma para mais uma sessão com a psicóloga quando ouve alguém bater a porta:
- A responsável está?
O mamá do irmão Patrick é interrompido quando a jovem de 16 anos volta para chamar a mãe Alete, que deixa o filho e vai em direção à porta. Ao sair depara-se com viatura de polícia, caminhão de mudança e pessoas gritando a frente de sua casa.
- A senhora pode sair que o pessoal põe tudo no caminhão. Pegue seus filhos que a senhora tem meia hora para encontrar uma nova moradia.
Sem saber o que acontece, vizinhos e curiosos chegam de toda parte, ameaçam fechar a rua, mas como o fato é novidade, ninguém sabe o que fazer. Chamam o padre. Todos estão pasmados. Ninguém esperava.
Por ter pagado apenas cinco, das 30 parcelas que devia à imobiliária, Alete Maria Vogt, 46 anos, foi condenada a viver sob o céu. Não fosse o apoio vindo da comunidade, ela e os quatro filhos (Leila Aline, Pércio Jean, Rafael Igor e Patrick Maikel) estariam vagando pelas ruas. Para não deixar a família sem teto, os líderes comunitários decidem colocá-la na sala de catequese da igreja.
E lá, eles viveram por quase cinco meses.
“Lá não tinha chuveiro com água quente, então improvisávamos uma banheira. Quando era muito frio, esquentávamos a água no fogão a gás, mas só para o Patrick. Não dava para gastar muito, como iríamos comprar mais?”, relata Leila. Os outros garotos reclamavam ¾ também queriam tomar um banho quentinho.
Foram vários meses de atividades voluntárias, mas finalmente conseguiram construir uma nova casa para aquela família.
Quando o rio foi o empecilho
Faltavam 15 dias para a filha nascer. As dores do parto iniciaram e Maria Luíza do Araújo precisava atravessar o rio Cubatão. O carro de um amigo permanecia na outra margem, porém ele não conseguira cruzar a ponte: estava quase encoberta pela água. O marido Ângelo então a colocou na garupa da bicicleta e três quilômetros depois chegaram ao Cubatão. O amigo resolveu arriscar. Atravessou a ponte de madeira e Maria Luíza, conhecida como dona Nega, pôde chegar ao hospital.
Vinte anos depois, no ano de 1981, no dia do noivado da jovem que naquele dia nascera, mais uma vez o rio foi o obstáculo. Em setembro ela decidira noivar, mas o namorado ficara impedido de chegar até ela. O volume de água do Cubatão aumentara e os amados tiveram de adiar a comemoração porque o noivo não conseguira atravessar o rio.
Essas situações são apenas uma amostra da importância que teve para a comunidade a construção de uma ponte de material na entrada do bairro, em 1989. Os mais antigos contam o sufoco que foi a grande enchente de 1985, quando quase todos tiveram de deixar suas casas. Esta foi uma das primeiras grandes mudanças que vieram para beneficiar os moradores do bairro.
Da mesma maneira que a tainha ao suco era apreciada, essas histórias de dona Nega e seu Ângelo eram degustadas ao som do bem-te-vi que, lá fora entre as folhas das árvores, entoava seu canto de acasalamento. A bebida que seu Ângelo chamava de vinho de laranja era forte como alcaparra e adstringente como aqueles caquis verdes. Minha voz nem sempre saia e o padre ao meu lado ria da minha ingenuidade.
Mas dona Nega não se importa em falar, falar, falar… Para mim é ótimo, assim faço duas coisas espetaculares ao mesmo tempo. Ouvir os relatos de uma das moradoras mais antigas do Paraíso e sentir a carne do peixe desmanchando sobre a língua traz uma sensação de anestesia divinamente inconfundível.
Quem também cozinha de maneira celestial é dona Norma. Ela é a mulher que cuidava do antigo padre da Paróquia São Domingos Sávio. Ela sempre tinha o cuidado de fazer um pouco a mais daquilo que ela e o pároco comeriam.
- Sempre chega alguém para almoçar. Quantas vezes você já veio aqui sem avisar?
Poderia até ser um puxão de orelha, mas preferi não interpretar desta maneira. Creio que foi um convite. Afinal, não se conseguiria ficar muito tempo sem comer aquela canjica.
Se a dona Nega e nem o padre estiverem em casa, o lugar para filar bóia é a casa da Dulce. Mas é preciso pensar bem antes de ir até lá. A comida não é muito boa e ela normalmente está apurada. Almoço feito as pressas, já dizia minha avó, é ruim. Não é por causa das iguarias que vou lá, mas pela companhia. Dulce é uma pessoa meiga, amiga, sincera e que tem uma infinidade de assuntos no repertório. Esses dias descobri que ela tem uma biblioteca. Amei! E acho que demonstrei tanto a minha empolgação que voltei de lá com três obras debaixo do braço: Microfísica do Poder, de Foucault e A Cabeça Bem-Feita, de Morin. A terceira era algo ruim, não lembro o nome.
Porém se você quiser almoçar na rua, tem local que vende x-um monte de coisa. Tem x-salada, x-bacon, x-hambúrguer, x-eggs… Eu e o Tiago já almoçamos um dia por lá e, juntos, gastamos, R$ 5. Cada um ingeriu um sanduíche e meio e um refrigerante. No ano passado, seu Paraná, o dono do estabelecimento, quase teve prejuízo. O vereador Marcucci queria que os locais, no Jardim Paraíso, que vendessem bebidas alcoólicas encerrassem o expediente às 21h. Indignados e sentindo-se mais uma vez discriminados, os moradores munidos com ofícios e abaixo assinados invadiram a sessão da Câmara de Vereadores e exigiram que o projeto não fosse aprovado. Apenas um votou a favor, o autor do texto.
Essa união dos moradores faz toda a diferença no Jardim Paraíso. Há mais ou menos seis anos, um grupo de moradores não agüentava mais a falta de água no bairro. Não tinha água para beber, tomar banho, lavar a roupa ou cozinhar. O líquido vital que hoje corre nas torneiras das casas do bairro foi conseguido com muita luta. Moradora do Paraíso há duas décadas, Maria Luiza Brassiani, 43 anos, comerciante de artigos de cama mesa e banho, era uma das várias moradoras que na época freqüentemente não tinham como saciar a sede.
Após três dias sem água, ela e os vizinhos fecharam a rua, pararam um ônibus e pediram para que o motorista os levasse até a antiga companhia de abastecimento de água da cidade, a Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento). Depois de algum tempo em frente à empresa e sem nenhum atendimento, um grupo de mulheres decidiu ligar a torneira que havia por perto. Todas estavam vestidas, mas decidiram esbanjar água. Elas tomaram banho e simularam lavar a roupa: “Levamos as toalhas, pegamos a mangueira e fizemos a festa”, conta Maria. Agora, dificilmente falta água na região. “Quando irá faltar, eles sempre ligam avisando”.
Mulheres trabalhadoras
Não é difícil encontrar homens coçando suas partes íntimas, sentados num bar no meio da tarde. É difícil encontrar mulheres penduradas nos muros conversando com as vizinhas. No Jardim Paraíso, o número de mulheres trabalhadoras é superior ao número de machos.
Mas nem sempre o ofício é legalizado, muitas estão na informalidade. Este é o caso de Ivanir Tertuliano da Silva. A manicure de 29 anos encontrou uma maneira de trabalhar sem precisar deixar a filha mais nova sobre os cuidados de outra pessoa. Há dois anos ela embeleza as unhas das mulheres do Paraíso, mas atenção: apenas as unhas das mulheres! O marido proibiu clientes masculinos.
- Moça, ele tem razão. Nós sentamos e conversamos sobre o assunto. Como faço as unhas em casa, num período em que estamos apenas minhas filhas e eu, não é legal trazer um homem que você não conhece para dentro da tua casa.
A pequena Adriana é uma sapequinha irritante. A mãe precisa enganar e coagir a filha para poder trabalhar. Se alguém chega e senta no lugar que ela estava. Logo vem o choro.
- Pára Adriana. Olha… a tia vai brigar com você.
- Ããã… Buá, buá, buá.
- Se você não parar, depois eu não te dou o Todinho! Pára Adriana.
Como Ivanir aprendeu o ofício? Sozinha. Nunca fez curso. Começou adornando as unhas das amigas e, após comprar revistas para conseguir fazer desenhos novos, a clientela aumentou. Imagens que lembram a Floresta Amazônica, palmeiras, rosas… É possível fazer uma viagem através dos desenhos de Ivanir. Quem quiser conhecer as pirâmides do Egito, com certeza, o modo mais prático, é ir até a casa da manicure.
O diferencial de Ivanir é o preço. Ela cobra R$ 10 para fazer o pé e a mão decorados. Muito abaixo do valor cobrado no centro da cidade – cerca de R$ 18. Aliás, o custo de vida no Jardim Paraíso é muito baixo. Lá, tudo custa mais barato.
A fome apertou meu estômago aquele dia de um jeito que não tinha outra solução. Eu precisava me alimentar. Vasculhei a bolsa e apenas uma moeda de R$ 1 saiu entre meus dedos. Mas o sol estava queimando e eu precisava beber algo. Entrei na primeira panificadora da avenida Júpiter. Sondei os preços e quase não me contive. Com apenas um real pude comer e beber. Ainda é possível sentir o gosto daqueles dois pães de queijo empurrados pelo esôfago pela água gelada.
A cebola
Como uma cebola, o Jardim Paraíso é um bairro que tem várias camadas. Ao descascá-lo, você pode parar na violência, na discriminação ou na fraternidade de um povo unido. Para aqueles que nunca sujaram seus calçados com o barro vermelho que gruda nos dias de chuva, falar que o Jardim Paraíso é um bairro violento é fácil. Ter a faca na mão, também é fácil. Políticos, traficantes e líderes comunitários estão munidos. E muito bem munidos. Cortá-lo e selecionar as partes sadias, no entanto, não é.
Alguns que selecionam as partes sadias dos 22 mil habitantes daquele local são as quase incontáveis denominações religiosas. Lá você pode escolher entre ir a Igreja Nova Jerusalém, Igreja Quadrangular, Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Assembléia de Deus, Igreja Água da Vida…
*Esse texto, como diz minha colega Letícia Caroline, tem pitadas de literatura. Para saber mais sobre jornalismo liteário, acesse http://www.textovivo.com.br/




Agosto 12, 2009 às 2:06 am |
OLá
Fui professora no bairro jardim paraiso, onde fui bem acolhida de 1999 a 2003.Tenho saudade de meus alunos. Por aqui aprendi que quem é do bem não tem o que temer nesta comunidade!
Professora karine Heline Rocha.
Atuei na rede municipal de Ensino na escola José do Patrocinio,na estrada Timbé.